27 de julho de 2009
Let's get physical
O balneário do liceu era um grande corredor com bancos corridos e cabides de parede, ao fundo uma zona forrada a azulejo "azul cueca" com cerca de vinte chuveiros suspensos de um varão central.
Eu tinha ginástica todas as quartas feiras de manhã e todas as quartas feiras chegava atrasado, quase sempre em risco de ficar com falta porque o prof Gonçalves não era para brincadeiras, infelizmente porque eu na altura não me tinha nada importado de brincar com ele.
O prof Gonçalves andava sempre de fato de treino e tinha entre as pernas uma melancia. Pelo menos era o que parecia, tal não era o volume. Na hora de exemplificar algum exercício, arrancava as calças pelas molinhas laterais das pernas qual striper e de calçãosinho lá mostrava como se fazia o pino entre gritinhos das raparigas o esgar de nojo de alguns rapases e o sindroma de Pavlov de alguns outros. Sim, o prof Gonçalves não usava cuecas.
A razão do meu atraso devia-se ao facto de as aula começarem às dez horas, precisamente ao mesmo tempo que acabava a aula do décimo primeiro ano e lá ficava eu a equipar-me muito devagar, quase em câmara lenta, chegando ao ponto de retirar os atacadores das minhas Adidas Nastase para poder demorar mais um pouco e assim enquanto a turma sete do décimo primeiro tomava duche e se lavava eu também ia lavando os olhos. Depois lá ia a correr para o ginásio e para o ralhete do prof Gonçalves.
Nessa turma do décimo primeiro havia dois gémeos, o Celso e o Nelson, ambos com corpo de ginasta russo e genitália de chefe de tribo africana. Eu perdia-me em contemplações e fantasias com aqueles dois pedaços de mau caminho. Os gémeos eram perseguidos por uma legião de miúdas a quem eles não ligavam nenhuma, vivendo um para o outro e para os poucos amigos que pareciam ter. O Chicha não percebia este meu fascínio pelo balneário. Sim aquilo era bom de se ver mas não podia passar dai, e isso a ele não lhe interessava nada.
Certo dia o prof Gonçalves faltou, lá tivemos de voltar ao balneário para nos desequiparmos e cada um ir fazer o que bem lhe apetecesse nas duas horas seguintes. Ainda lá estavam alguns do décimo primeiro, entre eles os gémeos. E lá fiquei eu, mais uma vez em câmara lenta a vê-los passar a toalha para se secarem antes de se vestirem, quando dei por mim já toda a minha turma tinha saído, estava-mos só eu, o Chicha, o Bruno, os gémeos e mais quatro da outra turma.
O Chicha desbocado como sempre manda uma tirada sobre o comprimento dos gémeos de tal maneira alto que até fez eco. Vai um deles levanta-se chega-se junto a ele, bem ao meu lado, tira o material das cuecas e pergunta-lhe se ele o quer medir. Mas o pobre não sabia com quem se estava a meter o Chicha agarra-lhe no instrumento e entre risadas diz que não tem ali régua mas que se ele e os amigos quiserem arranja-se qualquer coisa.
O certo é que os outros cinco vieram logo para junto de nós e um deles sacando do dito cujo avança logo com uma de "Olha os putos querem festa! Então mede lá este também..."
Em menos de nada, já os gémeos, o Bruno e mais um tipo se tinham pirado e em menos de cinco minutos, sempre com o coração na boca, quer dizer o coração e não só, com medo que aparecesse alguém o serviço foi despachado.
Assim, todas as quartas feiras às dez horas lá ficava eu a equipar-me bem devagarinho, mas agora com a companhia do Chicha enquanto os nossos três novos amigos se desequipavam também muito devagarinho bem à nossa frente...
Anos mais tarde já na faculdade, encontrei os gémeos, tinha aberto um salão de cabeleireiro. Eu entrei para um corte de cabelo e ao vê-los o meu coração caiu aos pés. Enquanto lava a cabeça tomei coragem, apresentei-me e relembrei os tempos do liceu e a tesão que me tinham provocado na juventude. O certo é que em menos de nada o salão estava fechado. As persianas corridas e as nossas roupas espalhadas pelo chão.
Foi o concretizar de mais uma tara de liceu, apesar de tudo posso dizer que não foi de longe o melhor corte de cabelo que já tive. Infelizmente. Pois sai de lá sem o cortar.
25 de junho de 2009
Take My Breath Away
Colei-o na parede aos pés da cama e todas as noites masturbava-me a fantasiar com o Iceman, aviões e motos. O deliro foi tal que a muito custo convenci o meu pai a comprar-me um blusão de aviador, que o pai do Índio vendia, que ele era Tenente-coronel na Base aérea de Tancos. A única pessoa a quem confidenciei esta paixão foi, como não podia deixar de ser, ao Chicha e ele, por artes mágicas consegui que fosse-mos todos numa visita a Base Aérea com o pai do Índio.
Assim, num dia bem cedinho ainda antes do nascer do sol, lá fomos num autocarro azul a caminho de Tancos e, depois de do que pareceu uma eternidade chegamos mesmo a meio da formatura. Os olhos quase me saíram das órbitas, centenas de "aviadores" ali alinhados como fruta num super-mercado. Depois da visita guiada pelas instalações, oficinas, casernas e afins, um dos pontos altos do dia foi a hora da ginástica. Dezenas de "magalas" de calção e camisola de alças, brancos como a neve, a exercitarem os corpos enquanto eu o Chicha, o Cabeçudo e o Bruno, enquanto os outros seguiam para ver sabe-se lá o quê, ficamos ali a babar sentados no chão de pernas encolhidas de modo a esconder discretamente as descomunais erecções que aquilo nos provocou.
Outro ponto alto foi o ir a bordo de um avião de caça, ali sentado a minha fantasia entrou em espiral e nos poucos segundos que estive sentado naquele cockpit imaginei-me a voar com o Iceman e depois do treino aéreo ir-mos os dois para a camarata fazer amor selvagem e ser-mos apanhados pelo resto do pelotão que excitados pela nossa volúpia se juntava a nos numa orgia descomunal.
No regresso a casa enquanto todos dormiam no autocarro, contei ao Chicha esta fantasia que tinha tido sentado no avião, enquanto ele fazia a sua magia pelo bolso rasgado das minhas calças. Para ele a vida da tropa não lhe dizia nada e eu mal podia esperar para concorrer á Força Aérea.
O meu pai achou muito bem, que a tropa ia fazer de mim um homem, também achei, mas secretamente o que eu esperava era fazer muitos homens na tropa.
Alguns dia depois tudo isto passou, e culpa foi da televisão e de "O preto esconde a força" e do tipo que borrifava com Drakkar Noir e fazia tiro com arco e sky e boxe em tronco nu. Apaixonei-me na hora, eu e o Chicha, que ficamos a babar, chegando mesmo a gravar no vídeo da tia dele o anuncio para ver-mos vezes sem fim enquanto nos acariciava-mos um ao outro frente a televisão.
Ao saber desta nossa fixação o meu padrinho ofereceu-me um frasco do dito perfume, que em poucos dias eu o Chicha e o Cabeçudo gasta-mos numa fúria perfumista. Depois o meu padrinho ensinou-nos que apenas umas quantas gotas na banheira dava o mesmo resultado e a brincadeira podia ser muito mais interessante, e assim foi. Fomos para casa dele e toma-mos o primeiro banho de espuma das nossa vidas, enquanto o meu padrinho sentado na sanita brincando com as jóias da família nos observava nos nossos jogos subaquáticos. No fim, e como forma de agradecimento pegamos nele e as nossas bocas foram pequenas para tanta sofreguidão. Foi também a primeira vez que o Cabeçudo provou leite, o do meu padrinho, que partilhamos entre todos num glorioso beijo final.
Quem não gostou nada desta onda do perfume foi o Bruno que dizia que lhe dava dores de cabeça e mais não sei o quê. Infelizmente. Para ele que não foi à "pesca submarina".
16 de abril de 2009
Ovinhos de Páscoa
O ano de 1989 nesse aspecto não foi diferente. Ficou na aldeia apenas meia dúzia de gente. Eu, o meu padrinho Carlos, o Black, o Bruno, o Pedro e o Fernando.
Aborrecidos de morte, sem nada para fazer, que nem para um joguito de futebol tínhamos gente suficiente, passava-mos os dias a vagabundear pelas ruas quando não chovia ou a jogar ás cartas em casa de um ou de outro.
O meu padrinho e o Black nem sempre alinhavam nos jogos das cartas, afinal sempre tinham mais de fazer. Quando estávamos todos juntos, a malta mandava umas bocas foleiras mas eles faziam-se de desentendidos, quem não percebia mesmo nada era o Fernando que desde aquela aventura astronómica nunca mais tinha tido coragem de me olhar olhos nos olhos. Mas eu estava determinado em mudar isso.
Ao fim do quarto dia de férias, o Carlos e o Black desapareceram, ninguém os viu durante dois dias inteirinhos. Quando voltaram, voltaram com uma na manga. Tinham preparado uma festa. Uma festa temática, assim cada um de nós teria de convencer os pais a deixar-nos passar a noite fora em casa do Carlos para uma "Caçada aos ovos". Eles já tinham tudo preparado e ficamos todos entusiasmados, embora no fundo fosse coisa de putos sempre era algo para agitar o marasmo daqueles dias.
Assim, naquela noite de Sexta-feira Santa lá nos dirigimos todos a casa do Carlos munidos de cestinhas quais menininhas para a tal "Caçada". Para minha surpresa fui o segundo a chegar, para alem dos anfitriões Carlos e Black, já lá estava o Fernando. Não fiquei surpreendido por ele já lá estar, fiquei foi porque ao entrar na sala o bom do Fernando estava tal como veio ao mundo, sentado na carpete a pintar com um pincelinho e guache os "ovos", sim os "ovos"! Foi aí que se fez luz e percebi que afinal aquela "Caçada" iria ser bem mais animada do que eu tinha inicialmente imaginado.
Entrei, despi-me e perguntei ao Fernando "Queres pintar os meus?" ao que o sacana responde "Claro, pinto-te os ovinhos e o pintainho" e com a maior das delicadezas saca do pincel e das tintas e vai de fazer bolinhas e tirinhas nos meus "ovos". Em menos de nada já tinha chegado toda a gente e depois de todos terem decorado os seus "ovos" começou a caçada.
As regras eram simples, primeiro e de luz apagada três de nós tinham de encontrar o par de "ovos" que mais lhe agradasse, depois se a "Galinha" fosse do seu agrado podia divertir-se um pouco, ao sinal do Carlos voltava-mos ao ponto de partida e era a vez dos outros três. No fundo foi uma espécie do jogo do quarto escuro, mas esta versão era muito mais divertida.
Depois de termos todo "caçado" os "ovos" o Black sugeriu que o melhor era deixar-mos a luz acesa e fazer uma "omeleta". A ideia foi bem aceite por todos, eu peguei na "Galinha" do Fernando decidido a fazer "claras em castelo" e sem saber como vi-me envolvido num turbilhão de corpos e prazeres.
Lá pelas cinco da manhã, completamente esgotados, fomos dormir nos braços uns dos outros. Lembro-me de pensar que pena o Chicha não ter estado aqui.
Quase no fim das férias, o Chicha voltou, e vinha com um saco de caramelos.
Não comi nenhum. Infelizmente. Para ele que também não comeu da tal "omeleta".
24 de fevereiro de 2009
Ê, meu amigo Charlie...
O Black era um tipo um pouco mais velho que nós e que tinha o secreto desejo de ir para os comandos, já naquele tempo o gajo parecia um armário, bom a bem dizer ele ainda estava dentro do armário, tinha uns braços e umas pernas que pareciam preservativos cheios de nozes.
A malta mascarava-se sempre de "poleiros", o "poleiro" é uma mascara em que se vestem roupas velhas, geralmente das avós e se cobre a cara com uma mascara barata de plástico e um lenço também rapinado à avó, um cajado ou um pau servem para completar a indumentária e dar cacetada nos não mascarados, quem não queria levar tinha de dar uma moeda. É claro que essas moedas eram sempre juntas no final da noite e esturradas em cerveja no bar da Casa-do-Povo.
Voltando ao Black, estávamos em 1988 e nessa altura o Chicha andava obcecado com o Black. É que algum tempo antes, depois de uma partida de futebol com uma das aldeias vizinhas lá no campo deles, da tal aldeia, existia um balneário. Coisa rara por aquelas bandas, e foi ai que o Chicha viu pela primeira vez, e tal como ele próprio dizia, "...toda a chicha do Black. Pá aquilo quase que chega aos joelhos!".
O Black era e ainda hoje é amigo do meu padrinho Carlos, o Carlos não é meu padrinho de baptismo mas não sei bem porquê comecei a chamar-lhe padrinho e ele afilhado, coisa que se mantém até hoje, como estava a dizer o meu padrinho e o Black eram e ainda são muito amigos, e quando digo muito, quero dizer bastante, e quando digo bastante, quero dizer que ainda hoje se amam com a mesma intensidade de 1988.
O Black foi o primeiro gajo que conheci que se depilava todo, em 1988 o Black pegava na Gillette e tirava todos os pelinhos do corpo, só tinha mesmo as pestanas e as sobrancelhas. Coisa é claro que me deixou cheio de curiosidade, quem mo contou foi o meu padrinho, a quem eu uma vez acedi a "raspar" os pelinhos mais inacessíveis da sua anatomia, á conta de uma história a bordo de um certo cargueiro que lhe tinha contado tempos antes e de que já falei também aqui no blog. Foi nesse dia que soube da grande amizade dos dois. E como uma coisa leva a outra, contei ao Chicha, o Chicha contou-me a mim e como estava-mos a poucos dias do Carnaval, pusemos um plano em acção.
Mascarados de poleiros andamos toda a tarde a cravar moedas e juntamos uma boa maquia, na hora do baile lá fomos, ainda mascarados meter-nos com o Black, cacetada daqui, paulitada dali, até o bicho começara a ficar chateado, "Se sei quem vocês são vão ver. Arranco-vos a cabeça à dentada. Putos do c#r@lh&!".
É claro que ao fim de mais de duas horas nisto ele vem mesmo atrás de nós, fugimos como o diabo da cruz sempre com ele no encalço. Quando finalmente ele nos apanhou, ou melhor quando nos deixamos apanhar, ele tira-nos as mascaras e vai "Vocês?! Filhos da p#t@! Agora pra castigo têm de me pagar uma mini" e vai o Chicha " Ó Black, a gente até te paga uma grade." E lá fomos para o bar, mandamos vir uma grade e enquanto conversava-mos eu e Chicha bebemos uma e ele o resto quase sem dar por isso, o certo é que já com o grão na asa o gajo queria ir embora, que tinha prometido ir ter com o meu padrinho e mais não sei o quê. Mas ao levantar-se, tropeça e cai redondo e vai a gente, bons samaritanos, toca de ajudar o Black. "Deixa que a gente leva-te a casa". E levamos. Quer dizer, levamos para casa do Chicha.
Deitámo-lo na cama do Chicha, tiramos-lhe as botas e a camisa, não fosse ele vomitar e vai o gajo, agarra-nos e puxa-nos aos dois. "Com que então, os meninos pensavam que me embebedavam?". "Não pá, a gente só tava na brincadeira" digo eu. "Na brincadeira? É? Não faz mal, que o Black tem aqui uma coisinha pra vocês brincarem...".
E foi assim que se passou mais um Carnaval, acabamos foi por não ir ao baile. Infelizmente. Para o meu padrinho que passou a noite à procura do Black com a serpentina na mão.
18 de dezembro de 2008
We'll Always Have Paris
Nesse ano porem foi diferente. O tio Augusto convidou-me a ir com ele a Paris. Como andava a tratar da CEE tinha de viajar para França e passar por lá o Ano Novo. Depois de convencer a minha avó que a muito custo e com a promessa que não me levaria por maus caminhos nem me misturasse com aquela gente do "Bochechas" e que estaria de volta a casa impreterivelmente no dia 4 de modo a voltar a tempo do início das aulas, lá acedeu a que o tio me levasse com ele.
O mais complicado foi convencer o meu pai, mas o Augusto fez prevalecer a sua autoridade de tio e o meu pai lá acabou por concordar que iria ser uma boa experiência para mim, em vez de ficar por ali pela aldeia onde provavelmente me embebedaria e acabaria a noite com ele a ter de me ir buscar ao fontanário, onde acabavam sempre todos os bêbados de todas as passagens de ano.
E assim foi, em menos de nada seguia-mos de carro para Lisboa. A primeira coisa que fizemos logo depois de dar entrada no Hotel Avenida Palace foi arranjar-me um passaporte, coisa normalmente complicada mas que o Augusto conseguiu com a ajuda de um assessor do tal do "Bochechas" no próprio dia.
O hotel deslumbrou-me, nunca tinha em toda a vida experimentado o verdadeiro luxo e recordo até hoje os lustres, a escadaria, o quarto e os lençóis. Aqueles lençóis imaculados com toque de puro mel. Passamos lá dois magníficos dias praticamente enclausurados no quarto, só saindo no sábado de manhã para me comprar roupa "decente", uma mala e um corte de cabelo.
No dia seguinte voamos para Paris. Lembro que me senti um galã de Hollywood com as minhas roupas novas a sair do avião ao encontro da cidade luz. Ficamos hospedados no Ritz na Place Vendôme, e depois de uma visita relâmpago pelos sítios turísticos e de mais de 15 rolos de fotografias, fomos finalmente jantar ao Les Élysées, um magnífico e luxuoso restaurante onde comi "Foi de veau" com umas batatinhas tipo berlinde e um molho à base de licor de absinto. Mais uma vez senti-me nas nuvens, sentia-me um príncipe russo em férias.
Nessa noite fomos a um bar que o tio conhecia e que se eu passasse por lá sozinho nunca diria que existia ali um bar, foi a primeira vez que vi e ouvi um karaoke. A fauna ara no mínimo interessante, nunca até então tinha estado num bar gay e a visão de certas coisas, personagens e atitudes abriu-me definitivamente os olhos para outra realidade. Foi uma noite muito divertida, conheci o Lá Fraise, um punk de cabelo cor-de-rosa amigo do meu tio e a sua melhor amiga de todo o mundo e em casa de quem iríamos passar o réveillon. Cláudia, uma drag queen de 1,90m com uma vasta cabeleira loira quase até ao chão.
Nos restantes dias, fiquei praticamente só no hotel, embora não me faltasse nada, porque qualquer desejo meu era para satisfazer sem questionar, tais tinham sido as ordens do tio Augusto, sentia-me um pouco abandonado, tendo apenas por companhia Lá Fraise, que de quando em vez vinha conversar um pouco comigo entre clientes no cabeleireiro. Eu sabia que o tio tinha que tratar de uma série de coisas chatas e papelada e reuniões.
Mas tudo era compensado quando ele chegava. Despia-se, despia-me e tomava-mos um banho. Depois deitávamo-nos um pouco para descansar antes do jantar. É claro que eu nunca o deixava descansar, desejoso de por em prática tudo o que aprendia com Lá Fraise, era engraçado, ver aquele punk com ar amaricado nos salões de um dos hotéis mais luxuosos de Paris e no entanto ele movia-se por ali como se o Ritz fosse a sua casa.
A passagem de ano propriamente dita não teve grande glamour, no fundo resumiu-se a um grupo de senhores engravatados, acompanhados por uns quantos rapazes mais novos e uma drag queen vestida de lamé prateado da cabeça aos pés. Tudo bem regado a Veuve Clicquot.
Enquanto o Augusto conversava com um velho que tinha idade para ser trisavô dele, a companhia desse mesmo matusalém veio conversar comigo, tinha mais 2 anos que eu, ombros largos, queixo quadrado, cabelos aloirados e uns olhos do mais verde que se possa imaginar. Depois de alguma conversa no seu francês macarrónico, que ele era checoslovaco lá nos acabamos por entender em inglês apesar de eu apenas "arranhar" a língua de sua majestade.
Fiquei então a saber que se chamava Sergej e vivia em Paris há dois meses em casa de Moussieur Antoine que o tinha convidado a partilhar o seu palacete e a sua alcova, coisa que Sergej fazia de bom grado. Já que na parte da alcova, para alem de umas quantas tentativas falhadas por parte de Moussieur Antoine, Sergej apenas tinha de se deixar "massajar" pela velha raposa. Conversa puxa conversa, acabei sem saber muito bem como, numa casa de banho com aqueles olhos verdes enquanto uma língua aveludada me percorria partes do corpo que eu nem sabia que existiam.
Cerca das 22 horas a coisa começou a esfriar, ou melhor começou a aquecer, porque dois a dois os velhadas e os rapazes ião desaparecendo, peguei no Sergej e no meu tio Augusto e sem uma palavra arrastei-os escadas abaixo enquanto este barafustava que ainda tinha umas coisas da conversa que estava a ter que queria explorar. Mandei o chauffeur levar-nos ao hotel e em menos de meia hora estava-mos naquela cama king size a explorar outras coisas.
Nessa noite não vimos o fogo-de-artifício. Infelizmente. Para o Moussieur Antoine, que em princípio dormiu sozinho.
16 de dezembro de 2008
Sounds like a melody
Eram dias de fartura esses, a Cremilde tinha sempre rabanadas, filhoses e coscorões, e de manhã podia-se beber café ao pequeno almoço. O galo engordava na capoeira sem saber o que o esperava e o meu avô engordava na sala sabendo exactamente o que o esperava.
Todos os anos o tio Augusto, irmão mais novo da minha avó, vinha passar o Natal, solteiríssimo e na flor da idade, como ele próprio costumava dizer.
Trazia sempre novidades, ora um brinquedo novo ainda por lançar em Portugal, ora uma guloseima que ainda ninguém tinha visto, era sempre algo que me maravilhava por ser único e por ser para mim. Nunca se esquecia, assim que pousava a mala no hall a primeira coisa que fazia depois de ir pedir a benção à mana era ir procurar-me com o embrulho na mão. Ficávamos então horas a fio com ele a contar-me por onde tinha andado nesse ultimo ano, que países visitara e as aventuras que tivera enquanto adido cultural de Portugal no estrangeiro. Preparava-se para Junho do próximo ano a adesão de Portugal à CEE, e ele tinha andado num corropio pelos países membros a preparar a dita adesão.
A minha avó é que não achava muita piada ao facto de ele andar metido nessas coisas da politica, até porque andava lá metido como "Bochechas" e ela não gostava nada do "Bochechas". Já o meu avô achava que sim porque a minha avó achava que não. Mas depois lá concordava com ela senão não havia poker para ninguém. O meu tio Joseph achava que "Ser um oporrtunidade fantástico parra Porrtugal" a minha tia não fazia a mais pequena ideia do que era a CEE e o meu primo Carlos não sabia, não queria saber e tinha raiva de quem soubesse. Eu sabia, que o António tinha-me explicado, um dia enquanto o ajudava a limpar os estábulos, depois de termos "rebolado" na palha ele contou-me tudo sobre o que era essa coisa do mercado único e da união dos países, e assim ao jantar surpreendi a minha avó que até "O menino vê-se que afinal não é tão tontinho como eu pensava. Veja bem Carlos, e siga o exemplo do seu primo, que a vida não é só motos, futebol e raparigas." Nessa noite ia rebentando, não pela quantidade de comida que a Cremilde me tinha posto no prato mas porque foi a primeira vez que a minha avó me elogiara até então.
No dia seguinte logo de manhãzinha, véspera de Natal, desejoso de dar nas vistas de novo, lá vou eu direito ao quarto de hospedes ter com o tio Augusto para falar mais um pouco da tal de CEE. Bati à porta e como não tive resposta entrei, ele estava no banho e enquanto esperava fui folheando umas revistas que ele tinha em cima da cama. uma delas chamou-me a atenção, e de tal maneira que não o ouvi nem ao entrar nem quando falou comigo e apanhei um susto de morte quando me tocou no ombro e disse "Estou a ver que gostas da Bent! Se quiseres podes ficar com ela que eu tenho mais uns números! Ou preferes ao vivo e a cores?". Fiquei branco de morte, não sabia para onde olhar, se para a revista onde dois rapazes se envolviam em algo parecido com luta greco romana sem roupa ou se para o roupão aberto do tio Augusto.
É claro que depois do embaraço inicial lá me resolvi pelo real que o papel nunca alimentou ninguém.
É claro que ouvimos um raspanete por chegar tarde ao pequeno almoço mas também não fazia mal que eu já tinha bebido leitinho.
O Jantar da consoada correu como seria de esperar, as couves, o bacalhau e seus acompanhantes, o galo, as castanhas, os bolos, os pudins, um dedal de vinho para os rapazes (eu e o meu primo Carlos) e comer e beber até mais não. Que se comemorava o aniversário do "Nosso Senhor Jesus Cristo".
A coisa entornou com o presépio, já que o Augusto achava que estava todo desproporcional. E vai dai começou no gozo que ele tal como eu também não achava grande piada aquilo, e que a Virgem e o Marido eram maiores que a igreja, e que os ovelhas maiores que o pastor, e que as figuras eram maiores que o casario.
Pronto. Por esta altura já o meu avô tinha saído, o meu tio, tia e primo encolhido a um canto, a Cremilde e a Isilda fugido para a cozinha, eu ria-me a bandeiras despregadas e a minha avó passava por todas as cores do arco-íris até explodir num esgar de "Vocês os dois são mesmo feitos do mesmo ramo. Vamos embora que está na hora da missa, e já que vos desagrada tanto o presépio escusam de vir, podem ficar ai que este ano nem morta deixo que recebam as graças do Menino Jesus" e dito isto sai porta fora com a comitiva em seu alcanço e lá ficamos nos os dois a rir a bandeiras despregadas.
É claro que a parvoíce em volta do presépio continuou, desde a abertura que a virgem devia ter para parir um menino daquele tamanho, até acabar na pilinha do Menino Jesus e por conseguinte noutras pilinhas.
Ficámos os dois à lareira do quarto de hospedes, enrolados numa manta a ouvir o Bobby Helms a cantar o Silent Night, aquela que a minha avó considerava a mais bela melodia do Natal. E foi assim que nesse ano não fui à missa. Infelizmente. Para o galo.
E como o prometido é devido, este post é dedicado a M.
Feliz Natal.
20 de novembro de 2008
Chora e não berra
Quer dizer, dançar dançar ninguém dançava, porque era raro irem miúdas às matines, que aquilo era um antro de perdição até a direcção da Casa-do-Povo a fechar e termos de nos mudar para a garagem do Pesca. Nunca percebi muito bem porque é que o Pesca se chamava Pesca, o Pedro dizia que era porque o tinha em forma de anzol mas eu nunca acreditei.
Na garagem do Pesca as tardes pareciam nunca mais acabar, tínhamos apenas cinco ou seis discos, entre eles o meu "O Disco Do Ano" que os meus pais me tinham dado pelos anos. Assim, à média luz e apenas com duas ou três miúdas para disputar o ambiente não era lá muito respirável e quando chegava a parte do slow era sempre a malta toda a encostar-se à parede a fumar um cigarro a meias ou então os mais destemidos dançavam sozinhos ou uns com os outros, só para treinar para quando viessem mais miúdas, o problema foi que elas nunca vieram.
Eu gostava de dançar, não tinha muito jeito mas com muita paciência e pés doridos o Chicha lá me foi ensinando como se dançava o slow. Ensaiávamos sempre em casa dele, no quarto e sempre ao som do "Chora e não berra". O Chicha tinha uma particularidade, rasgava sempre os bolsos das calças para poder chegar mais facilmente à chicha. Descobri isso da pior, ou da melhor, maneira. Um dia depois do ensaio resolvemos fumar um cigarro e vai dai meto-lhe a mão no bolso e qual o meu espanto que em vez dos cigarros apanho um charuto, foi uma risota pegada, eu com ele na mão dentro do bolso muito atrapalhado sem saber se largava ou não e o Chicha muito satisfeito a rir a bandeiras despregadas.
Um dia então resolvi fazer o mesmo, rasguei o bolso direito e lá fui para a a matine, o primeiro foi logo o Tchico, queria uns trocos para uma cola no bar do Ti Jorge e ao meter a mão como de costume a ver se eu tinha uma de 20 apanhou cá um susto que até se arrepiou, depois lá voltou a por a mão no bolso e continuou a procurar a procurar sempre com aquele ar de sacana que ele tinha.
O certo é que a moda pegou e não tardou muito andava toda a gente com os bolsos rasgados. As matines ganharam um novo alento, já que durante os slows andava toda a gente de bolso em bolso a ver se alguém tinha uns trocos ou cigarros. Segundo consta o bolso mais concorrido era o do Pesca que assim que alguém lá punha a mão não tirava mais, com ele logo a dizer "Aí chora e não berra". Consta, que eu nunca lá pus a mão. Infelizmente.
9 de setembro de 2008
The Love Boat II
Outro dos sítios onde eu reinava era a casa das máquinas, uma espécie de porão no centro à Ré do navio abaixo da linha de água, o calor era abrasador, uma espécie de sauna onde o cheiro a suor, metal, óleo e testosterona se misturava numa espécie de perfume quente e inebriante e que pelo facto de quase toda a gente andar em tronco nu era um lugar magnífico para “lavar a vista”. Cerca de vinte homens por turno, todos na casa dos vinte, vinte e cinco anos, corpos tornados, oleados, suados e… quase todos "depilados". Com quinze anos e como era filho do capitão gozava de um certo grau de imunidade, desde que os disparates não pusessem em causa a integridade física de alguém ou em risca a carga ou o próprio navio, eu fazia o que bem me desse na bolha. Na casa das máquinas uma das minhas vítimas preferida era o Antunes.
O Antunes tinha vinte e dois anos e um corpo de ginasta russo, uns olhos rasgados de um avelã profundo enquadrados num rosto da planície alentejana e sempre com a braguilha descosida por excesso de bagagem. Pois eu adorava atazanar o Antunes, sempre que o apanhava debruçado em algo apalpava-lhe o rabo, se o pobre se esticava par alcançar algo, lá estava eu vindo por de trás a apertar-lhe os tomates, passava por ele e vai de dar um puchãozinho nos pelos do peito ou dos da barriga, fazia-lhe festas na cara e dizia-lhe “Só não te beijo já aqui à frente de toda a gente porque tens a barba mal feita e não me quero arranhar.” Apalpava-o, amassava-o, eriçava-o, deixava-o em ponto de rebuçado, ao ponto de o pobre chegar a rebentar o fecho das calças. Finalmente um dia lá me compadeci dele, uma noite em que estava de folga, combinei com o Ricardo, colega de cabine dele que à troca de um dos meus serviços de mão, ele dormiria fora essa noite, assim enfiei-me na cabine deles e deitei-me na cama do Ricardo, quando o Antunes chegou despiu-se, enfiou-se na cama e apagou a luz, então eu tiro a roupa, desço do beliche abro-lhe a cortina da cama e digo “Espero que tenhas feito a barba”. Vinte e um centímetros de homem sorriam para mim. No fim parecia um menino. Chorou, foi o meu primeiro virgem.
No dia a seguir, levei-o à Lúcia e ela quando lhe expliquei a situação lá se dispôs a “desonrar” o rapaz. Foi então que joguei a minha cartada. Com aquelas medidas de entrepernas ou ela me deixava se não participar, pelo menos assistir, ou então eu saia com ele no próximo porto e dava a honra a outra. Foi um bom trunfo, ela acedeu e foi maravilhoso, numa única vez tive ao mesmo tempo o melhor de dois mundos. O Ricardo é que coitado ficou toda a noite em claro à minha espera para o tal servicinho. Infelizmente, para ele.
5 de setembro de 2008
The Love Boat
Nessa viagem dividia uma cabine com um marinheiro chamado Carlos e que era guarda de portaló, eu no beliche de cima e ele no de baixo e que de vez em quando especialmente quando chegámos à Europa me deixava "dormir" com ele por causa do "frio", sim porque aquilo "é normal, não quer dizer que a gente não goste de gajas, mas depois de tanto tempo no mar tás a ver a malta tem de se aliviar. E os amigos são para as ocasiões..." debitava ele depois de ao espreitar do beliche de cima o ter apanhado a masturbar-se e de o tipo ter ficado todo atrapalhado quando me juntei a ele "eh pá mas que idade é que tu tens afinal? Com uma verga desse tamanho!?" E vai daí agarrou-se a ela e nunca mais a largou...
O Pássaro, coitado, sofreu um bocado comigo, desde massa consistente a rechear as botas, aos berlindes no teto falso, passando pela "cama à espanhola" e pela braguilha de todas as calças cozida com fio de pesca, preparei-lhe um baptismo/barrela de passagem pelo Equador, então em conjunto com alguns marinheiros e com a conivência dos oficiais lá agarramos o Pássaro que nu e amarrado pelos pés foi suspenso no convés para um banho de água fria, umas quantas vergastadas no rabiosque com uma varinha de cabo de aço e uma depilação genital gentilmente oferecida pelo barbeiro de serviço, ou seja, eu.
O tipo até levou aquilo tudo na brincadeira, que ele no fundo até era um bocado tó-tó, mas o melhor disto tudo foi no dia a seguir é que para quem não sabe eu explico, o navio está dividido em 4 partes: a Ré, ou seja a parte de trás do navio, onde vivem os marinheiros que trabalham na Casa das Máquinas, o motor do navio, o Popa onde vivem os restantes marinheiros chamados de Mestrança e todos os outros que não sendo oficiais também não são marinheiros como por exemplo cozinheiros, despenseiros, empregados de câmaras etc., o porão e a torre, na torre para alem do posto de comando do navio vivem todos os oficiais cada um no seu camarote individual e foi por isso que eu tive de ir para a popa, visto o camarote do meu pai só ter uma cama.
Na popa só existem duas casas de banho tipo balneários, e foi ai que reparei que havia algo de diferente no Pássaro, e não fui só eu a reparar, até que um dos marinheiros gritou "foda-se Pássaro, tás cá com um vergalho pá, o que é que andás-te a fazer?" pois foi, depois da depilação forçada o pássaro do Pássaro parecia na verdade muito maior e então foi um ver se te avias com pedidos de "ó puto podes me rapar também a mim?". Assim e durante uma série de dias lá andei de cabine em cabine a depilar marinheiros. O ritual era sempre o mesmo, sentava-me com ele de calças em baixo e vai de aplicar creme da barba, depois esfregar um pouco para fazer espuma o que resultava quase sempre em mágnificas erecções e depois lá tinha eu de aliviar aquilo para os poder rapar em condições, foi assim que até ao fim da viagem ganhei a alcunha de "Mãozinhas".
Depois quando chegamos à Holanda ou à Alemanha, não tenho bem a certeza, aparece-me o Primeiro Imediato na sala de convívio da Popa, um cubículo recheado de posters de gajas nuas, uma televisão e uma estante com a maior colecção de livros pornográficos que alguma vez vi na vida, e diz-me se eu não me importava de passar na sala dos oficiais mais tarde que ele e o Primeiro Piloto queria fala comigo. Entrei em pânico. Eu, na sala dos oficiais? Porquê? Será que a cena do "Mãozinhas" tinha chegado lá acima? Será que o meu pai já sabia? Foda-se até já estava a ver os outros oficiais: “Já sabes pá? O filho do capitão pá, anda por ai a bater pivias aos marinheiros”.
Assim à hora combinada lá fui, e qual não é a minha surpresa quando ao chegar lá os dois pegam em mim, levam-me para o camarote do Piloto arreiam as caças e “Por favor pá, rapa lá gente que a gente não conta nada ao comandante. Por favor.” E pronto, lá teve de ser, com eles muito embaraçados, que não estavam acostumados aquele nível de intimidade e como tal foi uma estreia para eles e o mais acanhado dos dois era o Imediato que quando se veio parecia uma fonte e deve ter mandado perto de meio litro que o Piloto até disse “Com um caralho, há quanto tempo é que você não manda uma ó Imediato? Olhe que isso faz mal homem! Deixe lá que a partir de hoje eu ajudo-o com isso...” e segundo parece ajudou mesmo que ficaram os dois em franca confraternização quando me fui embora. Nessa noite contei o caso ao Carlos e ele riu-se a bandeiras despregadas, que já desconfiava do Piloto, que ele comia a malta com os olhos “... E por falar em comer? Não queres mordiscar nada?” dizia ele com ele na mão.
A 28 de Outubro chegá-mos a Lisboa. Foi o fim da viagem, o fim da aventura. Nunca mais soube nada do Carlos, anos mais tarde encontrei o Piloto numa outra viagem, num outro barco, desta vez de cruzeiro viajávamos os dois sozinhos, eu até Miami para ir ter com o meu pai e ele a trabalhar, reconheceu-me logo que me viu “Mãozinhas. Então? Bolas, Cresceste pá! Ouve lá, ainda?...”. Soube depois que o Imediato tinha ficado em Lisboa. Infelizmente, para ele. Que a minha viagem até Miami foi, como dizer? “Depilatória”!
25 de julho de 2008
Halley
A Estela tinha um irmão que tinha um telescópio, um telescópio a sério e que sabia mesmo o nome das estrelas e das constelações e mapas dessas mesmas constelações para várias alturas do ano e que sabia de cor os dia certos para observar os planetas e que as estrelas cadentes eram meteoritos e o que era um cometa e foi ele que nos avisou que vinha ai o Halley. Chamava-se Fernando e usava sempre suspensórios e óculos com aros de tartaruga e tinha uma armação em metal com lentes escuras que encaixava nos óculos para ficar com óculos escuros e que me ensinou onde fica Orion e a Cintura de Orion e que representava um caçador e outras coisas a que sinceramente nunca prestei muita atenção porque ele foi a primeira pessoa que conheci que para alem de parecer uma enciclopédia de astronomia adorava desafios de matemática livros de quebra-cabeças e fazia musculação, disto tudo eu fingia interessar-me por astronomia e pelo cometa Halley mas na verdade eu gostava mesmo era de anatomia, principalmente da dele. A minha casa tinha três andares e era a mais alta da rua, tinha um terraço ao nível do segundo andar e de lá todas as manhãs por volta das sete e meia, hora a que me levantava para ir para o liceu, via o Fernando debaixo do telheiro do quintal a levantar pesos e a fazer abdominais, ficava nisto sempre cinco minutos antes de me ir masturbar e tomar duche, tomava o pequeno-almoço e saia para a paragem do autocarro onde os outros já me esperavam. O Fernando já andava no último ano e ia de mota e um dia fiz de propósito para perder o autocarro e fui-lhe pedir boleia que ia ter teste e mais uma seria de balelas e ele deu e assim fui abraçado aquele “tronco” com as mão bem agarradas aqueles abdominais bem torneados, ao chegar disse-lhe que tinha medo de andar de mota e pedi desculpa por me ter garrado com tanta força e vai ele “não faz mal puto sempre quiseres podes-te agarrar a mim...” eu ruborizei e sai disparado em direcção à sala de aula. Depois à noite e com a desculpa sempre esfarrapada do cometa, coisa que andava a fascinar toda a gente que até parecia que era contagioso, lá ia para casa dele para o sótão ver as estrelas e as constelações e como o sótão era quente como o caraças por causa da caldeira de aquecimento que o pai deles tinha instalado e que mandava o calor todo para ali enquanto a casa permanecia um gelo, ver o Fernando em tronco nu. Então um dia, se não estou em erro em Março, ele diz “temos de sair esta noite, vamos para o mato que aqui há muita luz” e lá fomos, ele eu o telescópio e dois sacos cama a caminho do descampado ao lado do Campo-da-bola para ver finalmente o tal do cometa, lembro-me de estar um frio de rachar e depois de montado o telescópio e ele o ter orientado de acordo com uns mapas nos termos enfiado nos sacos camas e de termos começado a bater os dentes com o frio e depois juntamos os sacos para nos aquecermos melhor e eu tomei coragem e aquecemo-nos mesmo, o certo é que no fim acabei por não ver o cometa nem naquela noite nem nas outras que se seguiram. Infelizmente. Para o cometa.